sábado, 11 de março de 2006

"O Nescau, a ausência e os estagiários movem o mundo."
constatação minha e de luciano nessa neste sábado

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

felicidade se acha é em horinhas de descuido *


a moldura vermelha dos óculos avisa com precisão:
o mundo hoje se enquadra melhor do que ontem.
pouco a pouco o sim brota da pele, do corpo, da boca que fala

eis que peso a medida do não.

sem que as lentes me digam, sem que o dedo apontado acuse
hoje sei que o disco risca, hoje sei do pisca-pisca, atrás dos óculos ou das ruas
lentamente, não há quem insista, nem mesmo o olhar que me faz

eis que os passos correm delicados, à sua medida e discrição.

* título fisgado pela beleza do verso de guimarães rosa

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

15:39, Centro, 2 minutos e meio na minha cabeça


O Jorge Drexler é bonitão, moreno, morenos... gostei do Moreno Veloso cantando. Preço de aula de canto, preço de aula de canto. Não, não vou poder. Agora vai ser só Jean Baudrillard, Morin e sem mais tempo. Tempo, tempo, tempo, és um senhor tão bonito. What can I say to you, Bonita? What magic words would capture you? Jobim, genial. Sem mais tempo, mas mais vida. Gente nova. Gente nova, é isso. Qual o melhor caminho? Qual o melhor caminho? Vou pela 18 e dobro na Alfredo. Como eu gosto da Alfredo. Rua larga. Gosto de ruas largas, acho que é isso. Por isso gostei de Goiânia. É um fim de mundo, mas tem ruas largas. Quero voltar logo à Av. Paulista e olhar pra cima, pra cima, confundir o céu com os prédios, com tudo enfim. Caxias. Eu gosto. Não gosto. Arrancando raízes. Talvez eu sinta saudades. É bem possível. Saudades só tem espaço quando o espaço se faz sem que me dê conta. A tua presença me dói tanto, eu canto pra ver se espanto esse mal... em que Cd tenho essa música? Tenho de arrumar os CDs. À noite lembro disso. Lembro, lembro. Motorista de merda. Fecha o sinal, fecha o sinal. 40% de desconto? Queria, mas não posso. Ou viajo ou compro roupas ou compro uma geladeira. Casas Bahia. Meu destino breve para admirar Brastemps e comprar uma Electrolux, que é bem mais barata. Electro, electro lux. Luz, quero luz, sei que além das cortinas são palcos azuis. Luz, quero... Oi, tudo bom? Tudo tranquilo. Nossa, que horror que ele tá. Detalhes, detalhes. Homem de regata é o fim da bola. Qualquer tesão possível desaparece com uma regata... regata... queria praia, queria muito estar na praia. Praia não é pra mim. Eu sou do campo. Por quê né? Nhé-nhé-nhé. É, sou do campo. Nossa, que coisa gaúcha de se dizer. Ha-ha, eu campeira. Tá, tá. Não é isso. Eu queria praia, mas não as gentes de praia. Gente se besuntando na areia, gatas de academia, moços marombados, crianças infernais, famílias infelizes em dias de trégua. Bécks. O mar talvez compense. O mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito. Saudades do Rio. Mar, montanha, democracia pra essas gentes de praia, espaço... espaço... então... fez-se o espaço. Fez-se a saudade. Fez-se a saudade e eis, eis o Banrisul! Porque nem tudo é o que parece... as aparências enganam aos que odeiam, aos que amam... que puta gravação essa da Elis. Última faixa do Elis, essa mulher. Tenho de parar com isso de saber a ordem dos discos. Disco, diz-que... diz que deu, diz que dá, e se Deus não dá? Como é que vai ficar...?

segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

sobre mim e o resto do mundo



Eu vou ser sempre alguém que acha o João Gilberto muito mais vanguarda que a Bjork.
E isso explica muita coisa.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

E eis alguns dos meus cliques numa tarde de céu colorido






Versos de Inútil Paisagem (Antonio Carlos Jobim e Aloysio de Oliveira - 1963)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

meia noite e dezessete


- Desliga a luz aí do teu lado? Ah, e agradece o convite, mas despista pra mim? Tu sabe Luiza, eu nunca fui bom em falar assim, em público. Me atrapalho todo. Meus pensamentos são relativamente bons, no máximo, quando permanecem dentro de mim mesmo. Não sei externar essas coisas. Com o tempo é que tenho aprendido a me dar, me doar, estabelecer algum tipo de relação com o mundo exterior, mas daí a conseguir falar pra mais de cinco pessoas durante uma hora é outra coisa. Tu sabes que o Tom Jobim, a quem teu pai atribui teu nome, dizia que a complicação da vida é que a gente tem de ser o síndico da gente mesmo. Não dá pra apelar sempre pro outro, chega um tempo em que os nossos problemas são nossos, por mais que a gente possa compartí-los. É louco isso, né Luiza? Porque eu sei que eu posso contar contigo, mas tem coisas que só eu posso resolver e aí muito do nosso romantismo cai por terra. Meu romantismo, da mesma forma que eu o alimento de forma crescente, seja lendo Neruda, seja olhando os Jasmins da esquina da Humberto de Campos eu o destruo quando vejo a senhora mal educada chupando o pêssego sem pagá-los no caixa de supermercado. E isso é idiota, eu sei. Eu não sou grande como tu pensas, eu me incomodo com essas coisas, a vida me irrita com cacos demais... é o celular que não funciona, é a capa da Veja desta semana, é a tinta da impressora, é o taxista de direita, é o PFL jovem, é o Caetano dizendo bobagens, é a tua mãe enchendo nosso saco, é teu irmão comendo a coxa da galinha, é o meu pai hiponcondríaco, é o teu jeito de passar batom... e eu já te disse o quanto o teu jeito de passar batom me irrita, Luiza. Eu, por mais que queira que tu me saibas por inteiro, não quero ter que detalhar a minha conta do banco, eu não quero que tu tenhas sempre a clareza de que eu vivo pra não estar no vermelho, de que eu quero te dar coisas, de que eu quero nos dar coisas, eu não quero esmiuçar todos os meus passos, por mais que eu queira que tu saibas como eu quero andar pelo mundo. Eu sou complicado, né Luiza? Com o Pedro era assim também? Tá, desculpa, desculpa, nós prometemos não falar de ex-amores. É que ex-amor também não existe... amor por mais que se vá, acaba ficando. Tu entendes o que quero te dizer? Talvez tu fiques magoada por eu te dizer isso, mas é verdade. E a verdade também é que eu me apaixono e desapaixono com uma facilidade incrível, Lu. Nunca te chamei de Lu. É tudo tão recente... mas a gente também combinou de não nos chamarmos por apelidos toscos, por mais vontade que eu tenha de te chamar de benzinho ou chuchu, de vez em quando. Mas não te preocupas. Nós dois temos plena consciência do ridículo da paixão. E eu te admiro sobretudo por isso, porque tu tens noção das pieguices, não as comete a ponto de beirar o constangimento mútuo e ao mesmo tempo tu te entregas. Isso é tão bonito em ti... sobretudo porque isso não tem psicólogo que ensine ou oriente. Ou tu te jogas para as coisas ou tu passas a vida com a marcha ré engatada. Não posso falar em ré engatada que me lembro do vencimento da carteira de motorista. Tu me lembra disso essa semana, certo? Eu tenho pavor dessas burocracias do mundo, pagar luz, ir no banco, comprar alpiste, negociar o aluguel. Eu sou um pulha, Luiza. Nunca serei um bom sindíco de mim mesmo. Eu nunca sei se uso eu ou uso mim. Como é que tu se apaixonou por mim? Ahn? Luiza? Lu? Chuchu? Dormiu.

terça-feira, 27 de dezembro de 2005

das palavras que me arrebatam 2*


Pequenas Epifanias
Caio Fernando Abreu, Estadão, 22/04/1986.

Há alguns dias, Deus - ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus - enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer - eu já estava lá dentro. E estar lá dentro daquilo era bom. Não me entenda mal - não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida".
Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziaram para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos. Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mau me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa.
Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas.
Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector - Tentação - na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível." Cito de cabeça, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada no degrau às três da tarde, com um cão bassê também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E, nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou - descuidado, também - em pequenas epifanias - Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias, encravadas no dia-a-dia.
Era isso - aquela outra vida inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nesses dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém mais veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso também tocar em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que recomponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.
* seguindo as coisas que nos invadem, este é, sem dúvida, meu conto preferido do Caio Fernando Abreu. Há tempos leio e releio isso. Agora compartilho com os queridos do pátio de cá / Imagem do gênio E. Hopper.