terça-feira, 27 de dezembro de 2005

das palavras que me arrebatam 2*


Pequenas Epifanias
Caio Fernando Abreu, Estadão, 22/04/1986.

Há alguns dias, Deus - ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus - enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer - eu já estava lá dentro. E estar lá dentro daquilo era bom. Não me entenda mal - não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida".
Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziaram para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos. Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mau me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa.
Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas.
Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector - Tentação - na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível." Cito de cabeça, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada no degrau às três da tarde, com um cão bassê também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E, nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou - descuidado, também - em pequenas epifanias - Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias, encravadas no dia-a-dia.
Era isso - aquela outra vida inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nesses dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém mais veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso também tocar em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que recomponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.
* seguindo as coisas que nos invadem, este é, sem dúvida, meu conto preferido do Caio Fernando Abreu. Há tempos leio e releio isso. Agora compartilho com os queridos do pátio de cá / Imagem do gênio E. Hopper.

das palavras que me arrebatam 1*


Céu embaixo
Paulo Leminski, do livro Gozo Fabuloso

17
Janelas, escancaradas janelas do 17º andar, aqui vou eu, aqui vai toda essa minha estúpida vontade de apagar a luz, única maneira decente de apagar a dor.

16
Décimo sexto andar. Até aqui, tudo bem. A temperatura está a 17 graus, o céu azul, e a lei da gravidade continua funcionando com o costumeiro rigor. Quem partiu, tem que chegar.

15
Ao passar pelo 15º andar, já não acho mais que quem partiu tem que. Está provado que é possível, em certos casos, partir sem chegar a. Nesses casos, se diz, houve empate. Eu não jogava pelo empate. Jogava pelo escândalo, vitória ou derrota. Foi vitória? Derrota? Tem gente que prefere abrir o gás. Tem quem se dedique à pesca submarina. Em nenhum desses casos, o fim é algo de último, a meta não é definitiva. Qual era o jogo dela? Fosse qual fosse, amigos, amigos, jogos à parte.

14
Só quem já caiu de um 1º andar pode imaginar o que senti quando. Quando foi mesmo? Será que foi? Ou foi um peso que tirei de cima de mim? Peso por peso, prefiro o meu, que, pelo menos, me leva para algum lugar.

13
Pronto. Treze é meu número de azar favorito. Tenho outros números de azar. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, por exemplo, essas coisas, enfim, que atravessam as réguas de cálculo. De todos, 13 é o meu predileto. Que foi que fiz para merecer cair até o 13º andar, donde se descortina um relance do Atlântico? Quem sabe eu não devia ter, vocês sabem. Vai ver, aquela nuvem lá longe não passa de um eco de um pensamento meu. A raiva é sábia.

12
Alguma coisa não pára de me dizer, não devia ter vindo. Eu sabia que a comida era péssima, o atendimento sempre ficava a desejar. Mas, depois de vindo, como desvir? O 12º é sempre o mais filosófico. Aquele onde o ato de pensar fica mais ridiculamente genérico. Cair não é genérico. Cair é a coisa mais natural do mundo. Cair é lógico. Podem perguntar para qualquer pedra do planeta Terra.

11
O 11º andar é sempre um caso à parte. Talvez melhor dissessem um caos à parte. Mas isto não seria correto. O correto consiste em dizer: o 13º andar, donde se descortina um relance do Atlântico, sim, o mais correto, é deixar cair.

10
Não sei como suporto esta situação. º absolutamente ridículo. Só porque alguém saltou do 17º andar de um edifício não quer dizer necessariamente que tenha que chegar até um, digamos, décimo andar. O décimo andar, em casos de queda, é objeto e motivo de lendas e chacotas entre muitos povos primitivos que, absorvidos por outros afazeres mais prementes, deixaram-nas cair no esquecimento, onde jazem até hoje. Mas jazem muito 'bem. As lendas 50bre o décimo andar, ainda vai haver quem as conte. Palavra de honra.

9
Que frio. Bem que minha mãe falou, leva um casaco. Sempre assim. A cabeça não pensa, o corpo é que sofre. O que eu queria mesmo era ficar para sempre nó 12º andar.

8
Ela, ela mora no 12º andar. Ao passar, quase dei um alô. Ela não entenderia. Telefonaria para a mãe. Fritaria um ovo. No máximo, olharia para baixo. Ou para cima, para ver de onde eu tinha vindo.

7
Parece mentira, mas cheguei ao 7º andar. A que ponto chegamos! Nessa velocidade, a lembrança do 12º andar parece apenas uma lembrança. A física ensina que os corpos têm sua queda acelerada à medida que se aproximam do destino. Não vejo por que deveria ser diferente comigo. A lei da gravidade é a mais democrática de todas. Rege, com idêntico rigor, gregos e troianos, jóias e paralelepípedos, impérios e pétalas de magnólia. Sete é conta de mentiroso. Ela me mentiu. Nada mais fácil que mentir que se ama alguém. Basta dizer: eu te amo. Quem vai saber? Como medir? Como provar? As palavras também estão sujeitas à lei da gravidade?

6
No sexto, fica a administração. É o andar mais frio e mais distante. É onde se tramam as grandes negociações, onde ficam os cofres com os segredos indecifráveis. Chegar ao sexto andar é a ambição de todo corpo que cai. Os que não. A poucos é dada essa proeza. Os que fracassam, fatalmente, continuarão caindo até o quinto, onde ficam os infernos.

5
Do antigo inferno, o moderno só traz o nome. Na verdade, o inferno de hoje, no quinto andar, é um dos andares mais agradáveis do edifício, dispondo de amplas instalações, sala, cozinha, banheiro, área de serviço e quarto de empregada. Os banheiros são revestidos de material à prova de fogo, precaução inútil, já que neste prédio raramente ocorre algum incêndio de proporções catastróficas. Da janela do quinto andar, avista-se o letreiro que diz, PROIBIDO CAIR.

4
Ninguém nunca soube para que servia o quarto andar. Sempre se imaginou que era uma espécie de depósito onde se guardavam as coisas que não serviam mais para os andares de cima, garrafas vazias, móveis usados, lâmpadas queimadas, livros já lidos, óculos quebrados, espelhos, diários, relógios.

3
Deus queira que esta saudade do 12º permaneça acesa durante todo este andar, durante o frio, o vento, a angústia, a raiva e a força maior deste poder que me chama.

2
Não há muito a dizer, nunca há. Meia dúzia de palavras resolvem problemas de mil anos atrás. Fomos nos dizendo cada vez menos Dizer sempre é uma outra coisa.

1
O chão é duro.
* E eis aí algo do Leminski que recém fui apresentada e me tomou de tal maneira que tive de postar aqui. Obrigada, Léo.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2005


meu indulto de natal
chegou calmo e tão sereno
veio em paz, todo moreno
desses presentes que não se pede,
presentes que acontecem


meu indulto de natal
sabe bem de seu papel
só tem medo do embrulho
tem receio é do volume
do amor que eu posso dar
* imagem do gênio do olhar, cartier bresson

quinta-feira, 15 de dezembro de 2005


Ontem ela roeu todas as unhas. Só não roeu tanto a do mindinho porque pouca unha tinha lá - nada mais restava a não ser um sanguezinho no canto e aquela dor de beliscão que agora ficara em seus dedos. Roeu todas as unhas enquanto ouvia Chet Baker e pensava que queria muito era viver em outro lugar.

A cidade, que agora lhe cabia nas palmas das mãos de unhas roídas, já não lhe entregava surpresas, não reservava esquinas que ainda não tinham sido cruzadas, avenidas novas para serem atravessadas. Nada. O vazio dos carros, dos postes sem luz, das gentes de atar em postes também. Até os loucos todos ela já conhecia.

Não dá pra se viver num lugar onde a gente já sabe da maioria dos loucos. É preciso haver loucos escondidos, loucos pra se revisitar, loucos debaixo de escadarias, loucos fazendo malabares com objetos invisíveis. E ali já não mais havia louco algum assim, louco novo, tinindo de esquizofrenia.

Tentou levar os pés à boca, pra ver se ao menos a unha do dedão não conseguia roer também. Nada. Os anos de exercícios não praticados só lhe valeriam a falta de flexibilidade, além da farta e vasta preguiça. E lhe dava uma preguiça imensa lembrar que é preciso mudar. Mudar dói. Mais do que roer unhas com afinco ao som de Chet Baker.

terça-feira, 13 de dezembro de 2005

Por amor à vida


Hoje fui ver no Santander Cultural (POA), a exposição "Por amor à vida", uma celebração ao centenário do Érico Veríssimo. Recomendo a visita, pois vale a pena. São belas fotos da intimidade do escritor, exibição de documentário e de originais, de desenhos - os quais me surpreenderam muito. Fiquei tocada muito em função do depoimento de outros escritores sobre ele, da postura retílinea dele diante da vida e ao mesmo tempo parecendo ser uma figura tão tranquila, amorosa, fazendo a diferença no compartir. Um homem gentil de todo.
Apenas recomendo a visita e deixo aqui um trecho de uma entrevista que Érico concedeu ao Antonio Hohfelt em 1973 e que traduz a impressão que ficou em mim após ver tudo isso:
"Confesso que cheguei a um ponto de saturação, autonáusea de minha obra literária, que me torna um pouco difícil escrever... e ao mesmo tempo ando tão apaixonado por literatura. Há tantas coisas novas que eu nem conheço. É por um enorme amor à vida que a gente faz arte. Multiplico minha vida na criação da dos outros."

sexta-feira, 9 de dezembro de 2005

*


Assopra esse balão
Pra que ele voe assim
À altura dos teus sonhos
Na medida dos teus braços
Certamente onde teus passos
Flanando, então, te levarão
*Outro post sertanejo.
Ilustra da amiga Clarissa e o meu palavreado solto.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

Meu maestro soberano


Então, hoje se completam 11 anos sem o Tom Jobim por aqui (25/01/27 - 08/12/94).
Saudades de gente que a gente nem viu. Isso é estranho. Haveria tanto a se falar dele que fico sem nem saber o que dizer. Apenas que, pra mim, ele é o maior. O maior gênio musical da nossa raça.
Estou ouvindo coisas dele desde cedo. Procurei uma imagem pra colocar aqui e pesquei umas de quando jovem - ele, tão lindo. Mas preferi essa, da fase início dos anos 90, que eu acho que traduz tanto do charme do maestro.
Salve Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, meu ídolo maior. Sempre.
Segue abaixo a minha preferida do dia, parceria com Marino Pinto - parceiro de duas das minhas preferidas entre as preferidas: Sucedeu Assim (que tem de ser ouvida) e Aula de Matemática. Porque são tantas e tudo lindo.


Sucedeu Assim
(Tom Jobim/Marino Pinto)

Assim,
Começou assim
Uma coisa sem graça
Coisa boba que passa
Que ninguém percebeu

Assim,
Depois ficou assim
Quiz fazer um carinho,
Receber um carinho,
E você percebeu

Fez-se uma pausa no tempo
Cessou todo meu pensamento
E como acontece uma flor
Também acontece o amor

Assim,
Sucedeu assim,
E foi tão de repente
Que a cabeça da gente
Virou só coração

Não poderia supor
Que o amor nos pudesse prender,
Abriu-se em meu peito um vulcão
E nasceu a paixão por você

"O conselho da Bossa Nova é de levar a pessoa à vida" (Tom Jobim)

“A morte de Tom Jobim não foi apenas a queda de uma árvore,
foi a derrubada de uma floresta” (Arnaldo Jabor)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

É melhor viver do que ser feliz


De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

Vinícius de Moraes

O domingo de ontem reservou boas emoções com o belo filme / documentário “Vinícius”, do Miguel Faria Júnior, lançado no Estado nesse final de semana. O documentário mescla uma narrativa da história de Vinícius de Moraes, mostrando cenas raras da intimidade do poeta, depoimentos de amigos, parentes e parceiros (Chico Buarque, Edu Lobo, Francis Hime, Carlos Lyra, Toquinho, Caetano, Maria Bethânia, Miúcha, Baden Powel, Antônio Cândido, as 4 filhas, entre outras gentes bacanas), récitas de poemas pelos atores Ricardo Blat e Camila Morgado, além da interpretação de músicas por um pessoal bacana como a Mônica Salmaso e Olívia Byington.

Uma das coisas mais bacanas do filme, pra mim, foi ver o lado mais passional de Vinícius. Já sabia dos 9 casamentos ao longo da vida dele, mas não da forma como estas paixões aconteciam. A Tônia Carrero, amiga de Vinícius, resume bem a energia amorosa de que ele precisava para criar e permanecer na constante busca por ser feliz: Vinícius precisava estar sempre na beira do precipício da paixão. Edu Lobo também diz uma das frases que Vinícius havia criado para uma de suas canções e que traduz essa busca e o modo “porra louca” como Chico também cita que Vinícius, na maior parte do tempo, conduzia a vida: É melhor viver do que ser feliz.

Chico Buarque cantando “Medo de Amar”, Vinícius dormindo e sendo acarinhado com um cafuné, Vinícius de pileque cantando “Pela luz dos olhos teus” recostado no ombro de Tom, Vinícius emocionado ao falar que Pixinguinha era o ser humano de alma mais bonita que tinha conhecido, Vinícius cantando os afrosambas com Baden, Susana – a filha mais velha - revelando histórias de família. Muitas passagens emocionantes ao longo de duas horas cravadas. Haveria muito mais a ser dito, muitas dessas passagens chegam a ser rápidas demais como a parceria com Tom, os meandros da Bossa Nova ou a cumplicidade com Toquinho no fim da vida. Mas nada que comprometa a beleza de um filme que fez as pessoas ficarem na sala de cinema até os créditos todos acabarem ao som de Samba da Bênção.

Assim, salve Vinícius, o poeta que talvez mais tenha aproximado a poesia ao nosso mundo cotidiano, o poeta formal de rimas ricas e sonetos, o poeta mais popular do Brasil. Como Ferreira Gullar comenta: Vinícius pra mim era alegria. Eu lembro dele sempre rindo. Ele ensinou o povo brasileiro a ser feliz.

terça-feira, 29 de novembro de 2005


Breno escutava Nina Simone enquanto arrumava a cama com os lençóis limpos que pegara do armário. Um jogo de lençóis azul. É bom dormir no azul, pensou. Tanto quanto deve ser doce morrer no mar. Era uma noite calma, depois daquela fase tão cheia de pendengas pela qual tinha passado.

Agora é que podia se perceber vivo. Quando deitava esticava as pernas até a beirinha da cama, curtindo a sensação de saber a extensão do próprio corpo, de sua casca. Erguia o braço pra cima e roçava a mão esquerda na parede da cabeceira, sentindo a aspereza na pele, divagando sobre superfícies, contatos, o tato em si. Enquanto agora ajeitava os travesseiros, com a meticulosidade que só um virginiano com ascendente em escorpião pode ter, o celular sobre a mochila tocou. Era Clara, claro.

Clara sempre ligava em horas inesperadas e entre tantos motivos esse era só mais um deles que fazia Breno gostar tanto dela nessa descoberta recente. Há tempos queria ter alguém pra quem pudesse ligar a hora que fosse, um alguém pra falar de madrugada, quando as reflexões sobre o próprio corpo não lhe descansavam tanto assim ou quando o CD da Elizeth Cardoso acabasse e ele tivesse preguiça de levantar pra colocar rodar de novo. Agora tinha a ela. Por vezes telefonava, às três ou quatro da manhã, só pra dizer "tu tá dormindo?" e rirem juntos ou ficarem com o gancho espremido entre o ombro e a orelha, deitados, um acalentando o sono do outro.

Essa noite ela estava sem jeito, chegou até a dizer um "desculpe te encher". Mais do que depressa ele rebateu com o tradicional "tu nunca enche". Foi quando menos esperava, que ela continuou: "a gente sempre enche, Breno. Uma hora ou outra a gente acaba enchendo... é uma palavra que chega torta, é um espirro no cinema, é uma pergunta quando todo mundo se calou, é um comentário indevido, é uma piada irônica que ninguém entende... no fundo, no fundo, uma hora ou outra a gente enche sim." De fato, ele parou e teve de concordar com "é verdade. Sem perceber, apenas seguindo, a gente enche. Mas sei lá, é que tu nunca me enche mesmo". Sorriram os dois. Um silêncio ecoou no quarto enquanto Nina cantava "My baby just cares for me". Não precisavam trocar palavra alguma. Sabiam-se vivos e mais do que isso, sabiam do amor para se encherem em momentos oportunos e precisos.

quinta-feira, 24 de novembro de 2005


O show do Vitor Ramil em Caxias foi o típico "quem foi, foi, quem não foi, perdeu". E perdeu muito. O cara entrou no palco às 23:50 e parou de tocar quando o relógio marcava 1:25h, com um direito de bis à capela, talvez pelo cansaço de segurar uma hora e meia tocando sozinho. O set list foi privilegiado pelos dois penúltimos discos lançados, Ramilonga - A Estética do Frio e Tambong, afora as óbvias e não menos belas Estrela, Estrela, Loucos de Cara e Joquim. Vitor não podia deixar de reclamar do som (o retorno para ele não estava bom, mas pra platéia isso passou em branco), mantendo a sempre ereta e charmosa postura pelotense. O público estava de tamanho bacana: pouca gente, sem aperto, sem desconforto - considerando o lugar inapropriado para apresentações acústicas.
A diversão ficou a cargo destas duas candidatas a blogueiras neste espaço. Quando o show se aproximava do fim eu e Clarissa Blade Runner nos entusiasmamos para que o barbudo cantasse "Clarisser", linda canção do 3º entre os sete CD´s do cara - A paixão de V segundo ele próprio. Gritar não pegava bem, apesar de fazê-lo do mesmo jeito.
Clarissa: - Camila, Camila... tu tem papel? Eu tenho muitas canetas e papel nenhum.
Camila: - Garçom, garçom, nos dá um guardanapo.
Ambas: - Nhé, ele nunca vai enxergar o guardanapo.
Camila: - Péraí que eu tenho algo.
Puxo a conta do meu celular e pego a última folha, com a listagem de ligações do mês de outubro. Clarissa saca uma caneta hidrocor preta e escreve bem grande CLARISSER. Enquanto ele canta o bis nós erguemos o papel alucinadamente. Nada. O show acaba.
Bem, o show acaba e vamos para a frente do palco, com umas cervejas a mais na cabeça.
Clarissa: - Vamos, vamos falar com ele?
Camila: - Vamos fazer um xixi e depois falar com ele...
Na volta do toalete, ao falarmos de conhecidos, eu digo:
- Sim, não tá me custando dizer um "te liga, formiga" pra figura.
Ao dizer isso, encontro uma ponta de fio de tomada, com o crossover completo. Acasos engraçados.
Camila: - E aí, vamos descer no camarim?
Clarissa: - Vamos!
As duas rolam por baixo das barras de segurança do palco, com a desenvoltura de quem não faz exercícios há 2 anos. Clarissa desce as escadas de caracol por primeiro e eu sigo atrás, correndo feito gazela. Na metade da descida da escada vemos o Vitor Ramil olhar pra cima com uma cara assustada. Eu páro por um segundo interminável e me dou conta de que estou de saia. De que estou de saia e um tanto pilequenta. Foi-se. Foi-se o dia em que Vitor me viu a fundo. Haha.
No mínimo, engraçado foi. Bastante. Ele nos diz, ainda meio atordoado: - Já vou subir gurias. Nisso a gente corre de volta para cima, às gargalhadas. Esperamos um pouco junto com uns 15 fãs sérios e compenetrados, rindo das gorditas querendo abraçá-lo. No ínterim aparece o amigo de um ex-namorado com uma conhecida e diz:
- E aí, tu nem sabe quem a Camila namorava...
Eu, mais do que depressa e alterada: - Não espalha, essas coisas não se contam! Pelamordedeus.
Só depois me toco que eles são parentes. O amigo e o ex. Bem, foi-se também.
Vitor adentra o salão, eu e Clarissa vamos furando a fila fingindo que dançamos ao som de Jorge Ben pra nos achegarmos por perto. Depois de quase todos o abraçarem, beijarem, pedirem autógrafos, nós entregamos a minha conta da Claro, dobrada A/C Vitor A Mil e dentro escrito, em cima de Clarisser: Nos deve uma conta e, em seguida, o nome da música. Abaixo, jura tanajura, os nossos endereços de e-mail, o link para minhas músicas no Trama e mais umas bobagens de fã bebum. A gente olha pra ele e diz: - Ó, uma conta pra ti. Ele diz: - Uma conta? O que querem que eu escreva nela? Nós: - Nada, é pra ti. Ele: - Posso levar. Nós: - Claro, claro... leva a conta da Claro. Ele meio sério, quase que ri. Falamos um pouco sobre o show, sobre o lugar e Clarissa fecha com chave de ouro, com caneta em punho, e diz a ele: - Posso fazer uma tatuagem em ti, Vitor? Ele diz: - Faz. Ela pega a caneta, puxa o braço dele e desenha umas flores um tanto abstratas no pulso dele. Ele, com cara de estranheza em meio àquilo tudo: - Tu és tatuadora? Ela: - Não. Ele: - Que desenho é esse? Ela: - Ah, isso é o que tu quiser.
Bem, ele terá muito tempo pra pensar no que é, pois ela o "tatuou" com uma caneta de retroprojetor, daquelas que tu tens de tomar uns 3 banhos até sair. Imaginamos ele no chuveiro, esfregando as mãos e dizendo: - Gurias filhas da puta.
Estávamos satisfeitas. Satisfeitas e com pouco dinheiro. E à pé. Estratégia de quem sai pros lugares sem carro: fomos pro lado de fora, perto da saída, pra analisarmos quem ia embora e se passasse algum conhecido, solicitar uma caroninha até o Centro. Passa um casal meio-amigo e damos a indireta: - Ô, vocês não querem rachar um táxi? - Ôpa, não, valeu, estamos de carro. E vão-se embora. Merda. Passa o músico caxiense simpático, sozinho, nos olhamos... ih, acho que não, pra ele não. Ninguém mais ia embora. Eis que surgem 3 fotógrafos adentrando num Gol. Bom, era nossa hora de marcar, antes de ficarmos no escanteio total: - Ô, vocês vão pro Centro? Os dois rapazes nos olham embasbacados, a moça diz: claro, entrem aí, sem grilos. Com esse trio bastante hilário, fomos ouvindo Pink Floyd até a 6ª Légua, pois fizeram questão de ver o açude da Clarissa. Entre muitas outras bizarrices na noite acabamos a mesma feito legítimos loucos de cara.

quarta-feira, 23 de novembro de 2005

Peito Vazio ou Um microconto pra Cartola



"Eu sempre fui sincero e você sabe muito bem", ecoava nos versos da música que o vizinho debaixo escutava a todo volume. Talvez fosse vingança por ela ter ouvido os 3 CD´s d'O Grande Encontro a partir das onze da noite na quarta passada. Agora ria quando lembrava da Elba Ramalho se esganiçando no som do banheiro com "A todo mundo eu dou psiu, psiu, psiu, perguntando por meu bem" e os barulhos de vassourada no chão clamando pelo tal "psiu" de fato.

Mas Estela dava de ombros pra sinceridade. Queria umas mentiras, uns enganos fortuitos pra alimentar o seu buraco. Agora olhava pro telefone e encarava aquele Motorola como talvez nunca tivesse olhado para alguém a quem amou. Um olhar íntegro, inteiro, concentrado. Pensava em ligar, pegava o aparelho na mão, até digitava o 910... e depois desistia. Não que a essa altura o Norberto merecesse um carinho seu, mas pôxa, aquilo não ia passar enquanto via Tela Quente no 12. Tela Quente, pé frio, companhia alguma. Esse era o retrato da sala. É a tal da falta que a gente nunca percebe e então se faz. A falta da rusga que seja, do ruído, da gritaria porque ele tinha comprado Parmalat desnatado e ela gostava do semi.

Agora ela estava semi. Semi-entediada, semi-querida, semi-bonita. Nada era pleno e talvez isso fosse durar muito tempo. Uns meses, quem sabe. Mas é como diz o Chico, "pra onde vai o amor, depois que o amor acaba?". Uns meses, então, quem sabe, bastariam pra desaguar a tristeza, beber em outras companhias, alterar a consciência até se sentir apta a dançar algo da Ivete Sangalo enlouquecidamente ou chamar o pessoal pra ir no videokê do Casarão, cantar com as putas.

O videokê, bem sabe, a música, sempre a salvava, de uma forma ou de outra. Mesmo que ao final da noite, embargada de Polares com a turminha bipolar, entoasse Cartola bem alto, já quebrando os saltos da sandália:

// Procuro afogar no álcool
A tua lembrança
Mas noto que é ridícula
A minha vingança
Vou seguir os conselhos
De amigos
E garanto que não beberei
Nunca mais
E com o tempo
Essa imensa saudade que sinto
Se esvai //

segunda-feira, 21 de novembro de 2005

Mais um exercício


Ele ouvia "Lígia" há mais de quarenta minutos no Repeat. Até mesmo João Gilberto já devia estar cansado de tudo aquilo. Mas algo teria de acalmá-lo depois de receber a conta de seu Vivo Pós com o valor de R$ 288,30. Duzentos e oitenta e oito reais com trinta centavos, porra! Nem na adolescência eu devo ter falado tanto, pensou ele. Mas na adolescência ele não tinha tanto o que falar mesmo.
Se pudesse voltar o tempo, teria lido mais Caio Fernando Abreu e menos Tio Patinhas, teria ouvido mais Piazzolla e menos Lobão. Mas, para tudo há tempo, diz-se, e pra não sentir o peso de desencaixe afirma com veemência que é um cara pós-moderno. Só assim, pra explicar tantas e díspares referências. O saco é que agora era um tempo de muito dizer, mas não queria alugar os quatro ou cinco bons amigos o tempo inteiro. Sabia que cansava aos outros, ainda mais pra contar e tentar analisar sua vida amorosa de cabo a rabo.
Não queria muito da vida, pensava ele. Ledo engano. A gente sempre espera e quer muito da vida, mesmo que não faça absolutamente nada para que algo aconteça. Mas que a gente quer, a gente quer - é fato. Talvez tivesse chegado a hora de seguir os conselhos de um próximo: "Te aquieta rapaz. Encontra uma mulher com quem ao menos tu não te sinta incomodado - se prazer não for o caso, assina a Zero Hora, faz o consórcio de um Gol. Te aquieta!".
Isso doía, mas ele sabia que talvez fosse chegar o dia em que tivesse de parar de sonhar em conhecer a Espanha e em Barcelona topar com o amor pra toda vida, e fosse obrigado a pensar que era tempo de realmente se aquietar. Ou não. Porque "Lígia" inspira tanto. Quem sabe o amor pra toda vida não está lá, sentadinho em algum dos Postos da Orla, esperando por ele num fim de tarde de quarta-feira?
Não teve dúvidas. Ia passar as férias no Rio. Beber chopes gelados em bares de Ipanema, até algo grande acontecer.

As canções que tocam dentro 5



Dia Branco

Se você vier
Pro que der e vier comigo
Eu te prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva
Se a chuva cair

Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça na beira do mar
Um pedaço de qualquer lugar
Neste dia branco
Se branco ele for
Esse tanto, esse canto de amor

Se você quiser e vier
Pro que der e vier comigo
Se branco ele for
Esse canto, esse tanto,
Esse tão grande amor, grande amor
Se você quiser e vier
Pro que der e vier comigo
* Geraldo Azevedo é, pra mim, um gênio da raça. Simples, sem rodeios.
Estava lembrando de shows bacanas que vi na vida e recordei de quando o vi, com o violão impecável, uma mão de direita digna de craque. Aí lembrei de Dia Branco, parceria com o Renato Rocha, que tem de ser ouvida.
Pra quem não tem nada dele, ouça aqui.

quinta-feira, 17 de novembro de 2005


Este lugar não é teu, quase ouço.

Mas e eu?

Eu que quero ficar
Tomar banho de chuva
Me espraiar ao sol
Rolar na grama
Tomar suco
E manchar o lábio, meio cor de uva?

Eu que te adoro, que ardo
Moro o olho em ti e esqueço do fardo
Mas de repente te odeio, te mato
E te digo baixinho:

Deixa eu ficar,
Assim, só mais um pouquinho?

quarta-feira, 9 de novembro de 2005

as canções que tocam dentro 4*



Não Tenha Medo Não!
Sérgio Sampaio

Suje os pés na lama
E venha conversar comigo
Comigo
Chore, esqueça o drama
E venha aliviar
O amigo
Vem, não tenha medo
Não tenha medo
Não tenha medo, não
Vem, não tenha medo
Não tenha medo, não
Vem, não tenha medo
A barra está pesada
Vem, não tenha medo
A barra pode aliviar
As pessoas são uns lindos problemas
Eu posso até acreditar
Eu acho tudo isso uma grande piada
Ou então eu não posso achar
Não me espera pra beber seu veneno
E nem pra ver você chorar
Demoro o tempo que for necessário
Eu moro longe
Eu posso nem chegar
Demoro o tempo que for necessário
Eu moro longe
Eu posso não voltar
Demoro o tempo que for necessário
Eu moro longe
Eu pó...
* Título do post fazendo sequência às canções do amigo Marco, com pedido de licença.
Sérgio Sampaio, grande paixão musical. "As pessoas são uns lindos problemas" já mata a canção na boniteza.

terça-feira, 1 de novembro de 2005

Quando o amor vacila


Piegas? Talvez.
Mania de mãos. Sempre.
Trechos de "Quando o amor vacila", de autoria anônima - poema recitado pela Maria Bethânia no show Maricotinha.

quinta-feira, 27 de outubro de 2005

Ao Francisco que virá

Franciscos me valham
De tamanha alegria
Da extrema euforia
Pela tua chegada

quarta-feira, 26 de outubro de 2005

auto-retrato

p.s.: gracias ao amigo carlos, pelo termo.

terça-feira, 25 de outubro de 2005

Ressucitando a Cher...

Essa cena me foi proporcionada pelo Augusto, na semana que passou.
Essas bobagens não tem preço.

terça-feira, 18 de outubro de 2005

Só pra exercitar...


Gosto de andar pelas ruas e observar as pessoas. Há um prazer de desvendar os gestos, ver como cada um se porta frente a situações cotidianas, estando simplesmente diante do dia-a-dia. Eu fico séria e reparo. E reparo que eu invento vidas para aqueles que passam: para o senhora franzina que espera a lotação, para o moço bonito que olha as televisões através das vitrines, para a criança que compra sorvete na praça, para o fotógrafo triste ao lado do chafariz.
Eu fico séria e reparo. Assim fica o meu eu de fora. Porque o meu eu de dentro ri, gargalha e se compadece com essas vidas tantas projetadas por todos aqueles que habitam em mim. Pois eu sou muitas e tão diversas, que esse manancial de gentes que moram dentro do meu eu de dentro me atordoam, me confundem e me completam. Me fazem ser como os outros me vêem, como eu sou, como eu fui e como espero ser.
Eu olho no espelho. Eu fico séria e reparo. E reparo no que esses eus me tornaram hoje. E torno a pensar em caminhos diversos, em outras possibilidades, em outras vidas maquinadas para mim – como aquelas que crio para os desconhecidos que encontro. Sabe-se lá que outros trajetos tortos eu e os meus eus poderíamos ter percorrido. Sabe-se lá que rumos distintos teríamos tomado se ao invés de alguns nãos tivéssemos dito sim, se ao invés de uns receios tivéssemos nos enchido de coragem e se ao invés de alguns sorrisos contidos tivéssemos permitido as emoções se espraiarem dentro de nós.
Eu e os meus eus. Eu falo contigo, eu fico séria e reparo. E reparo que somos dois, mas somos tantos, uns iguais e outros tão inversos. Eu e os meus eus. Tu e os teus eus. Travamos tantos embates ao fazer com que tanta gente dentro de nós se compreenda e se solidarize com as dores e as alegrias uns dos outros.
Eu e os meus eus. Tu e os teus eus. E mais as vidas que inventamos para os eus alheios.
* Foto devidamente creditada ao queridíssimo Augusto Neftali.

terça-feira, 11 de outubro de 2005

Minhas legítimas bobagens



É, eu me meto a fazer essas montagens de imagens com fotos que tiro.
Bobagens, mas minhas legítimas bobagens.

segunda-feira, 10 de outubro de 2005

Depois de ter você


Ela se pinta, se ajeita, se depila, se faz bonita para o que há de acontecer. E nada acontece. Há tempos que nada, absolutamente nada de novo acontece, mas ela cumpre seu rito como se nenhuma dor fosse essa. Antes ficasse despenteada, de cara lavada e mesmo peluda se à sua volta possibilidades de encontros e possíveis amores não surgem. E não surgem porque vive mês após mês pensando na impossibilidade de paixão que se foi. Se foi sem nem uma despedida, um chopinho de adeus, uma saidela de goodbye. Nada. Neca de pitibiribas. Enquanto toma banho pensa nas suas travas emocionais e na gilete, velha, ao lado do sabonete da Malu Mader. Como se tomar banho com Lux Luxo te deixasse com a pele da morena da novela. Ela queria crer nisso. “Pele de Malu, pele de Malu” – dizia a si mesma, ao mesmo tempo em que esfregava o Lux pelo colo e pelo pescoço (ninguém lava o pescoço, mas ela sim). Ela gosta de frango empanado com Nescau, e gosta de comê-los limpa e depilada ouvindo Adriana Calcanhoto. Ela é blasé e não sabe. Quando põe o primeiro pedaço de frango na boca cantarola: “Depois de ter você, pra quê querer saber que horas são?”.
* Inauguro aqui a presença feminina no blog, muito timidamente, a convite do querido Marco. Este foi publicado no zine Krak-à-Toa, mas é um começo, pra sair da toca. (Dica para ser lido ao som de "Cantada", da Adriana Calcanhoto).