quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Pra uma tarde fria e chuvosa aqui




RAMILONGA
Vitor Ramil

Chove na tarde fria de Porto Alegre
Trago sozinho o verde do chimarrão
Olho o cotidiano, sei que vou embora
Nunca mais, nunca mais
Chega em ondas a música da cidade
Também eu me transformo numa canção
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí
Ramilonga, Ramilonga
Sobrevôo os telhados da Bela Vista
Na Chácara das Pedras vou me perder
Noites no Rio Branco, tardes no Bom Fim
Nunca mais, nunca mais
O trânsito em transe intenso antecipa a noite
Riscando estrelas no bronze do temporal
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí
Ramilonga, Ramilonga
O tango dos guarda-chuvas na Praça XV
Confere elegância ao passo da multidão
Triste lambe-lambe, aquém e além do tempo
Nunca mais, nunca mais
Do alto da torre a água do rio é limpa
Guaíba deserto, barcos que não estão
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí
Ramilonga, Ramilonga
Ruas molhadas, ruas da flor lilás
Ruas de um anarquista noturno
Ruas do Armando, ruas do Quintana
Nunca mais, nunca mais
Do Alto da Bronze eu vou pra Cidade Baixa
Depois as estradas, praias e morros
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí
Ramilonga, Ramilonga
Vaga visão viajo e antevejo a inveja
De quem descobrir a forma com que me fui
Ares de milonga sobre Porto Alegre
Nada mais, nada mais

sábado, 3 de junho de 2006

resposta-sanduíche pelos teus 38*

do outro lado, o velho marco,
hippie-lebowski, uruguaianense do mundo,
criticando a moça do ai-ai-ai
à margem fico eu,
sem ter como retrucar às suas eruditices,
os seus modos de implicar
na próxima, capricha, meu velho
não faça troça de vanessa,
desvela tua escuta peculiar.
assume, em tuas doses homeopáticas,
em teus poemas confessionais,
em tuas adoráveis digressões enigmáticas
grita alto e sem receio:
sim, eu confesso!
também gosto de pastiches.
* parabéns, amigo. meu melhor abraço.

quarta-feira, 3 de maio de 2006

Para amiga Clarissa


Pelos teus 25 anos, pelos nossos alinhavos pela vida, pelos nossos recortes, por me ensinares a boniteza de uma boa amizade, pela sensibilidade que tens, pela artista que és, pelas coisas bonitas e singelas que personificas e confirmas nestes nossos caminhos de perto, de longe e de sempre. Pelas bobagens, pelos choros, pelas gargalhadas, pelos conselhos, pela força, pela troca, pelas artes, pela música, pelas construções comuns.
Pelo ser humano bacana, Clarissa, parabéns!
Tudo de melhor e amoroso pra ti.
Feliz Aniversário, da amiga de cá.

domingo, 23 de abril de 2006

Um verso dedicado


E se ficar triste, lembre que algodão-doce é bom e colorido.
E que a vida pode ser assim, em algum lugar, com alguém, algum dia.

segunda-feira, 17 de abril de 2006



Roubo versos
desavergonhadamente
como quem toma emprestado um lápis do colega
e não devolve ao passar dos dias
como quem quer escrever rabiscos pela vida afora
mas não tem apontador

segunda-feira, 20 de março de 2006


Porque aqui faz calor e eu durmo sem roupas e acordo cedo com a janela escancarada, deixando o sol na cara me deixar transtornada logo pela manhã.
Porque hoje o trem quebrou e eu conversei com tanta gente diferente que de repente não sabia mais quem eu era e onde estava.
Porque eu escuto John Coltrane enquanto tomo um suco de limão e penso que a vida pode sim ser refrescante em tantos sentidos.
Porque há pouco eu aprendi o conceito de intuição, de virtualidades e do devir e isso, de alguma forma, já mudou tanto do que eu achava que sabia.
Porque nesse momento a tarde cai, minha roupa seca no varal e eu sinto saudades de certas coisas, daquelas saudades boas de se sentir.
Porque eu já não sou quem eu era ontem, porque eu já não sou quem eu era agora, porque alguém me liga e eu percebo que sim, eu simplesmente sou.
Porque imaginar o final de semana traz gosto de merecimento, porque minha preguiça passou e porque se permitir é tão incrível quanto Neil Armstrong pisar na lua.
Porque já dá pra ver a lua, porque amanhã é sexta-feira, porque eu gosto de cortar a unha e roer logo em seguida.
Porque descobri o quão legal uma criança pode ser, porque laços não se quebram, porque minha casa nova é agora a minha casa.
Porque o cinema já existia antes do cinema, porque champignon e pão preto é o que tenho na geladeira, porque o suor escorre nessas tardes de verão.
Porque talvez tantas coisas, porque talvez tantas outras, porque a incerteza seduz, porque é bom à meia luz.
Porque meu olho se cerra no momento em que encerra a plenitude dos dias.
Porque esse é um tempo espantosamente e deliberadamente otimista.
Porque me convenci.
A única coisa que vai se eternizar é o afeto.
* a foto é uma colaboração especial da minha mãe, Cora, que fez o clique no Chile, na prainha frequentada por Pablo Neruda.

sábado, 11 de março de 2006

"O Nescau, a ausência e os estagiários movem o mundo."
constatação minha e de luciano nessa neste sábado

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

felicidade se acha é em horinhas de descuido *


a moldura vermelha dos óculos avisa com precisão:
o mundo hoje se enquadra melhor do que ontem.
pouco a pouco o sim brota da pele, do corpo, da boca que fala

eis que peso a medida do não.

sem que as lentes me digam, sem que o dedo apontado acuse
hoje sei que o disco risca, hoje sei do pisca-pisca, atrás dos óculos ou das ruas
lentamente, não há quem insista, nem mesmo o olhar que me faz

eis que os passos correm delicados, à sua medida e discrição.

* título fisgado pela beleza do verso de guimarães rosa

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

15:39, Centro, 2 minutos e meio na minha cabeça


O Jorge Drexler é bonitão, moreno, morenos... gostei do Moreno Veloso cantando. Preço de aula de canto, preço de aula de canto. Não, não vou poder. Agora vai ser só Jean Baudrillard, Morin e sem mais tempo. Tempo, tempo, tempo, és um senhor tão bonito. What can I say to you, Bonita? What magic words would capture you? Jobim, genial. Sem mais tempo, mas mais vida. Gente nova. Gente nova, é isso. Qual o melhor caminho? Qual o melhor caminho? Vou pela 18 e dobro na Alfredo. Como eu gosto da Alfredo. Rua larga. Gosto de ruas largas, acho que é isso. Por isso gostei de Goiânia. É um fim de mundo, mas tem ruas largas. Quero voltar logo à Av. Paulista e olhar pra cima, pra cima, confundir o céu com os prédios, com tudo enfim. Caxias. Eu gosto. Não gosto. Arrancando raízes. Talvez eu sinta saudades. É bem possível. Saudades só tem espaço quando o espaço se faz sem que me dê conta. A tua presença me dói tanto, eu canto pra ver se espanto esse mal... em que Cd tenho essa música? Tenho de arrumar os CDs. À noite lembro disso. Lembro, lembro. Motorista de merda. Fecha o sinal, fecha o sinal. 40% de desconto? Queria, mas não posso. Ou viajo ou compro roupas ou compro uma geladeira. Casas Bahia. Meu destino breve para admirar Brastemps e comprar uma Electrolux, que é bem mais barata. Electro, electro lux. Luz, quero luz, sei que além das cortinas são palcos azuis. Luz, quero... Oi, tudo bom? Tudo tranquilo. Nossa, que horror que ele tá. Detalhes, detalhes. Homem de regata é o fim da bola. Qualquer tesão possível desaparece com uma regata... regata... queria praia, queria muito estar na praia. Praia não é pra mim. Eu sou do campo. Por quê né? Nhé-nhé-nhé. É, sou do campo. Nossa, que coisa gaúcha de se dizer. Ha-ha, eu campeira. Tá, tá. Não é isso. Eu queria praia, mas não as gentes de praia. Gente se besuntando na areia, gatas de academia, moços marombados, crianças infernais, famílias infelizes em dias de trégua. Bécks. O mar talvez compense. O mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito. Saudades do Rio. Mar, montanha, democracia pra essas gentes de praia, espaço... espaço... então... fez-se o espaço. Fez-se a saudade. Fez-se a saudade e eis, eis o Banrisul! Porque nem tudo é o que parece... as aparências enganam aos que odeiam, aos que amam... que puta gravação essa da Elis. Última faixa do Elis, essa mulher. Tenho de parar com isso de saber a ordem dos discos. Disco, diz-que... diz que deu, diz que dá, e se Deus não dá? Como é que vai ficar...?

segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

sobre mim e o resto do mundo



Eu vou ser sempre alguém que acha o João Gilberto muito mais vanguarda que a Bjork.
E isso explica muita coisa.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

E eis alguns dos meus cliques numa tarde de céu colorido






Versos de Inútil Paisagem (Antonio Carlos Jobim e Aloysio de Oliveira - 1963)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

meia noite e dezessete


- Desliga a luz aí do teu lado? Ah, e agradece o convite, mas despista pra mim? Tu sabe Luiza, eu nunca fui bom em falar assim, em público. Me atrapalho todo. Meus pensamentos são relativamente bons, no máximo, quando permanecem dentro de mim mesmo. Não sei externar essas coisas. Com o tempo é que tenho aprendido a me dar, me doar, estabelecer algum tipo de relação com o mundo exterior, mas daí a conseguir falar pra mais de cinco pessoas durante uma hora é outra coisa. Tu sabes que o Tom Jobim, a quem teu pai atribui teu nome, dizia que a complicação da vida é que a gente tem de ser o síndico da gente mesmo. Não dá pra apelar sempre pro outro, chega um tempo em que os nossos problemas são nossos, por mais que a gente possa compartí-los. É louco isso, né Luiza? Porque eu sei que eu posso contar contigo, mas tem coisas que só eu posso resolver e aí muito do nosso romantismo cai por terra. Meu romantismo, da mesma forma que eu o alimento de forma crescente, seja lendo Neruda, seja olhando os Jasmins da esquina da Humberto de Campos eu o destruo quando vejo a senhora mal educada chupando o pêssego sem pagá-los no caixa de supermercado. E isso é idiota, eu sei. Eu não sou grande como tu pensas, eu me incomodo com essas coisas, a vida me irrita com cacos demais... é o celular que não funciona, é a capa da Veja desta semana, é a tinta da impressora, é o taxista de direita, é o PFL jovem, é o Caetano dizendo bobagens, é a tua mãe enchendo nosso saco, é teu irmão comendo a coxa da galinha, é o meu pai hiponcondríaco, é o teu jeito de passar batom... e eu já te disse o quanto o teu jeito de passar batom me irrita, Luiza. Eu, por mais que queira que tu me saibas por inteiro, não quero ter que detalhar a minha conta do banco, eu não quero que tu tenhas sempre a clareza de que eu vivo pra não estar no vermelho, de que eu quero te dar coisas, de que eu quero nos dar coisas, eu não quero esmiuçar todos os meus passos, por mais que eu queira que tu saibas como eu quero andar pelo mundo. Eu sou complicado, né Luiza? Com o Pedro era assim também? Tá, desculpa, desculpa, nós prometemos não falar de ex-amores. É que ex-amor também não existe... amor por mais que se vá, acaba ficando. Tu entendes o que quero te dizer? Talvez tu fiques magoada por eu te dizer isso, mas é verdade. E a verdade também é que eu me apaixono e desapaixono com uma facilidade incrível, Lu. Nunca te chamei de Lu. É tudo tão recente... mas a gente também combinou de não nos chamarmos por apelidos toscos, por mais vontade que eu tenha de te chamar de benzinho ou chuchu, de vez em quando. Mas não te preocupas. Nós dois temos plena consciência do ridículo da paixão. E eu te admiro sobretudo por isso, porque tu tens noção das pieguices, não as comete a ponto de beirar o constangimento mútuo e ao mesmo tempo tu te entregas. Isso é tão bonito em ti... sobretudo porque isso não tem psicólogo que ensine ou oriente. Ou tu te jogas para as coisas ou tu passas a vida com a marcha ré engatada. Não posso falar em ré engatada que me lembro do vencimento da carteira de motorista. Tu me lembra disso essa semana, certo? Eu tenho pavor dessas burocracias do mundo, pagar luz, ir no banco, comprar alpiste, negociar o aluguel. Eu sou um pulha, Luiza. Nunca serei um bom sindíco de mim mesmo. Eu nunca sei se uso eu ou uso mim. Como é que tu se apaixonou por mim? Ahn? Luiza? Lu? Chuchu? Dormiu.