sexta-feira, 23 de dezembro de 2005


meu indulto de natal
chegou calmo e tão sereno
veio em paz, todo moreno
desses presentes que não se pede,
presentes que acontecem


meu indulto de natal
sabe bem de seu papel
só tem medo do embrulho
tem receio é do volume
do amor que eu posso dar
* imagem do gênio do olhar, cartier bresson

quinta-feira, 15 de dezembro de 2005


Ontem ela roeu todas as unhas. Só não roeu tanto a do mindinho porque pouca unha tinha lá - nada mais restava a não ser um sanguezinho no canto e aquela dor de beliscão que agora ficara em seus dedos. Roeu todas as unhas enquanto ouvia Chet Baker e pensava que queria muito era viver em outro lugar.

A cidade, que agora lhe cabia nas palmas das mãos de unhas roídas, já não lhe entregava surpresas, não reservava esquinas que ainda não tinham sido cruzadas, avenidas novas para serem atravessadas. Nada. O vazio dos carros, dos postes sem luz, das gentes de atar em postes também. Até os loucos todos ela já conhecia.

Não dá pra se viver num lugar onde a gente já sabe da maioria dos loucos. É preciso haver loucos escondidos, loucos pra se revisitar, loucos debaixo de escadarias, loucos fazendo malabares com objetos invisíveis. E ali já não mais havia louco algum assim, louco novo, tinindo de esquizofrenia.

Tentou levar os pés à boca, pra ver se ao menos a unha do dedão não conseguia roer também. Nada. Os anos de exercícios não praticados só lhe valeriam a falta de flexibilidade, além da farta e vasta preguiça. E lhe dava uma preguiça imensa lembrar que é preciso mudar. Mudar dói. Mais do que roer unhas com afinco ao som de Chet Baker.

terça-feira, 13 de dezembro de 2005

Por amor à vida


Hoje fui ver no Santander Cultural (POA), a exposição "Por amor à vida", uma celebração ao centenário do Érico Veríssimo. Recomendo a visita, pois vale a pena. São belas fotos da intimidade do escritor, exibição de documentário e de originais, de desenhos - os quais me surpreenderam muito. Fiquei tocada muito em função do depoimento de outros escritores sobre ele, da postura retílinea dele diante da vida e ao mesmo tempo parecendo ser uma figura tão tranquila, amorosa, fazendo a diferença no compartir. Um homem gentil de todo.
Apenas recomendo a visita e deixo aqui um trecho de uma entrevista que Érico concedeu ao Antonio Hohfelt em 1973 e que traduz a impressão que ficou em mim após ver tudo isso:
"Confesso que cheguei a um ponto de saturação, autonáusea de minha obra literária, que me torna um pouco difícil escrever... e ao mesmo tempo ando tão apaixonado por literatura. Há tantas coisas novas que eu nem conheço. É por um enorme amor à vida que a gente faz arte. Multiplico minha vida na criação da dos outros."

sexta-feira, 9 de dezembro de 2005

*


Assopra esse balão
Pra que ele voe assim
À altura dos teus sonhos
Na medida dos teus braços
Certamente onde teus passos
Flanando, então, te levarão
*Outro post sertanejo.
Ilustra da amiga Clarissa e o meu palavreado solto.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

Meu maestro soberano


Então, hoje se completam 11 anos sem o Tom Jobim por aqui (25/01/27 - 08/12/94).
Saudades de gente que a gente nem viu. Isso é estranho. Haveria tanto a se falar dele que fico sem nem saber o que dizer. Apenas que, pra mim, ele é o maior. O maior gênio musical da nossa raça.
Estou ouvindo coisas dele desde cedo. Procurei uma imagem pra colocar aqui e pesquei umas de quando jovem - ele, tão lindo. Mas preferi essa, da fase início dos anos 90, que eu acho que traduz tanto do charme do maestro.
Salve Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, meu ídolo maior. Sempre.
Segue abaixo a minha preferida do dia, parceria com Marino Pinto - parceiro de duas das minhas preferidas entre as preferidas: Sucedeu Assim (que tem de ser ouvida) e Aula de Matemática. Porque são tantas e tudo lindo.


Sucedeu Assim
(Tom Jobim/Marino Pinto)

Assim,
Começou assim
Uma coisa sem graça
Coisa boba que passa
Que ninguém percebeu

Assim,
Depois ficou assim
Quiz fazer um carinho,
Receber um carinho,
E você percebeu

Fez-se uma pausa no tempo
Cessou todo meu pensamento
E como acontece uma flor
Também acontece o amor

Assim,
Sucedeu assim,
E foi tão de repente
Que a cabeça da gente
Virou só coração

Não poderia supor
Que o amor nos pudesse prender,
Abriu-se em meu peito um vulcão
E nasceu a paixão por você

"O conselho da Bossa Nova é de levar a pessoa à vida" (Tom Jobim)

“A morte de Tom Jobim não foi apenas a queda de uma árvore,
foi a derrubada de uma floresta” (Arnaldo Jabor)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

É melhor viver do que ser feliz


De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

Vinícius de Moraes

O domingo de ontem reservou boas emoções com o belo filme / documentário “Vinícius”, do Miguel Faria Júnior, lançado no Estado nesse final de semana. O documentário mescla uma narrativa da história de Vinícius de Moraes, mostrando cenas raras da intimidade do poeta, depoimentos de amigos, parentes e parceiros (Chico Buarque, Edu Lobo, Francis Hime, Carlos Lyra, Toquinho, Caetano, Maria Bethânia, Miúcha, Baden Powel, Antônio Cândido, as 4 filhas, entre outras gentes bacanas), récitas de poemas pelos atores Ricardo Blat e Camila Morgado, além da interpretação de músicas por um pessoal bacana como a Mônica Salmaso e Olívia Byington.

Uma das coisas mais bacanas do filme, pra mim, foi ver o lado mais passional de Vinícius. Já sabia dos 9 casamentos ao longo da vida dele, mas não da forma como estas paixões aconteciam. A Tônia Carrero, amiga de Vinícius, resume bem a energia amorosa de que ele precisava para criar e permanecer na constante busca por ser feliz: Vinícius precisava estar sempre na beira do precipício da paixão. Edu Lobo também diz uma das frases que Vinícius havia criado para uma de suas canções e que traduz essa busca e o modo “porra louca” como Chico também cita que Vinícius, na maior parte do tempo, conduzia a vida: É melhor viver do que ser feliz.

Chico Buarque cantando “Medo de Amar”, Vinícius dormindo e sendo acarinhado com um cafuné, Vinícius de pileque cantando “Pela luz dos olhos teus” recostado no ombro de Tom, Vinícius emocionado ao falar que Pixinguinha era o ser humano de alma mais bonita que tinha conhecido, Vinícius cantando os afrosambas com Baden, Susana – a filha mais velha - revelando histórias de família. Muitas passagens emocionantes ao longo de duas horas cravadas. Haveria muito mais a ser dito, muitas dessas passagens chegam a ser rápidas demais como a parceria com Tom, os meandros da Bossa Nova ou a cumplicidade com Toquinho no fim da vida. Mas nada que comprometa a beleza de um filme que fez as pessoas ficarem na sala de cinema até os créditos todos acabarem ao som de Samba da Bênção.

Assim, salve Vinícius, o poeta que talvez mais tenha aproximado a poesia ao nosso mundo cotidiano, o poeta formal de rimas ricas e sonetos, o poeta mais popular do Brasil. Como Ferreira Gullar comenta: Vinícius pra mim era alegria. Eu lembro dele sempre rindo. Ele ensinou o povo brasileiro a ser feliz.

terça-feira, 29 de novembro de 2005


Breno escutava Nina Simone enquanto arrumava a cama com os lençóis limpos que pegara do armário. Um jogo de lençóis azul. É bom dormir no azul, pensou. Tanto quanto deve ser doce morrer no mar. Era uma noite calma, depois daquela fase tão cheia de pendengas pela qual tinha passado.

Agora é que podia se perceber vivo. Quando deitava esticava as pernas até a beirinha da cama, curtindo a sensação de saber a extensão do próprio corpo, de sua casca. Erguia o braço pra cima e roçava a mão esquerda na parede da cabeceira, sentindo a aspereza na pele, divagando sobre superfícies, contatos, o tato em si. Enquanto agora ajeitava os travesseiros, com a meticulosidade que só um virginiano com ascendente em escorpião pode ter, o celular sobre a mochila tocou. Era Clara, claro.

Clara sempre ligava em horas inesperadas e entre tantos motivos esse era só mais um deles que fazia Breno gostar tanto dela nessa descoberta recente. Há tempos queria ter alguém pra quem pudesse ligar a hora que fosse, um alguém pra falar de madrugada, quando as reflexões sobre o próprio corpo não lhe descansavam tanto assim ou quando o CD da Elizeth Cardoso acabasse e ele tivesse preguiça de levantar pra colocar rodar de novo. Agora tinha a ela. Por vezes telefonava, às três ou quatro da manhã, só pra dizer "tu tá dormindo?" e rirem juntos ou ficarem com o gancho espremido entre o ombro e a orelha, deitados, um acalentando o sono do outro.

Essa noite ela estava sem jeito, chegou até a dizer um "desculpe te encher". Mais do que depressa ele rebateu com o tradicional "tu nunca enche". Foi quando menos esperava, que ela continuou: "a gente sempre enche, Breno. Uma hora ou outra a gente acaba enchendo... é uma palavra que chega torta, é um espirro no cinema, é uma pergunta quando todo mundo se calou, é um comentário indevido, é uma piada irônica que ninguém entende... no fundo, no fundo, uma hora ou outra a gente enche sim." De fato, ele parou e teve de concordar com "é verdade. Sem perceber, apenas seguindo, a gente enche. Mas sei lá, é que tu nunca me enche mesmo". Sorriram os dois. Um silêncio ecoou no quarto enquanto Nina cantava "My baby just cares for me". Não precisavam trocar palavra alguma. Sabiam-se vivos e mais do que isso, sabiam do amor para se encherem em momentos oportunos e precisos.