domingo, 14 de outubro de 2007

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Pra uma tarde fria e chuvosa aqui




RAMILONGA
Vitor Ramil

Chove na tarde fria de Porto Alegre
Trago sozinho o verde do chimarrão
Olho o cotidiano, sei que vou embora
Nunca mais, nunca mais
Chega em ondas a música da cidade
Também eu me transformo numa canção
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí
Ramilonga, Ramilonga
Sobrevôo os telhados da Bela Vista
Na Chácara das Pedras vou me perder
Noites no Rio Branco, tardes no Bom Fim
Nunca mais, nunca mais
O trânsito em transe intenso antecipa a noite
Riscando estrelas no bronze do temporal
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí
Ramilonga, Ramilonga
O tango dos guarda-chuvas na Praça XV
Confere elegância ao passo da multidão
Triste lambe-lambe, aquém e além do tempo
Nunca mais, nunca mais
Do alto da torre a água do rio é limpa
Guaíba deserto, barcos que não estão
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí
Ramilonga, Ramilonga
Ruas molhadas, ruas da flor lilás
Ruas de um anarquista noturno
Ruas do Armando, ruas do Quintana
Nunca mais, nunca mais
Do Alto da Bronze eu vou pra Cidade Baixa
Depois as estradas, praias e morros
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí
Ramilonga, Ramilonga
Vaga visão viajo e antevejo a inveja
De quem descobrir a forma com que me fui
Ares de milonga sobre Porto Alegre
Nada mais, nada mais

sábado, 3 de junho de 2006

resposta-sanduíche pelos teus 38*

do outro lado, o velho marco,
hippie-lebowski, uruguaianense do mundo,
criticando a moça do ai-ai-ai
à margem fico eu,
sem ter como retrucar às suas eruditices,
os seus modos de implicar
na próxima, capricha, meu velho
não faça troça de vanessa,
desvela tua escuta peculiar.
assume, em tuas doses homeopáticas,
em teus poemas confessionais,
em tuas adoráveis digressões enigmáticas
grita alto e sem receio:
sim, eu confesso!
também gosto de pastiches.
* parabéns, amigo. meu melhor abraço.

quarta-feira, 3 de maio de 2006

Para amiga Clarissa


Pelos teus 25 anos, pelos nossos alinhavos pela vida, pelos nossos recortes, por me ensinares a boniteza de uma boa amizade, pela sensibilidade que tens, pela artista que és, pelas coisas bonitas e singelas que personificas e confirmas nestes nossos caminhos de perto, de longe e de sempre. Pelas bobagens, pelos choros, pelas gargalhadas, pelos conselhos, pela força, pela troca, pelas artes, pela música, pelas construções comuns.
Pelo ser humano bacana, Clarissa, parabéns!
Tudo de melhor e amoroso pra ti.
Feliz Aniversário, da amiga de cá.

domingo, 23 de abril de 2006

Um verso dedicado


E se ficar triste, lembre que algodão-doce é bom e colorido.
E que a vida pode ser assim, em algum lugar, com alguém, algum dia.

segunda-feira, 17 de abril de 2006



Roubo versos
desavergonhadamente
como quem toma emprestado um lápis do colega
e não devolve ao passar dos dias
como quem quer escrever rabiscos pela vida afora
mas não tem apontador

segunda-feira, 20 de março de 2006


Porque aqui faz calor e eu durmo sem roupas e acordo cedo com a janela escancarada, deixando o sol na cara me deixar transtornada logo pela manhã.
Porque hoje o trem quebrou e eu conversei com tanta gente diferente que de repente não sabia mais quem eu era e onde estava.
Porque eu escuto John Coltrane enquanto tomo um suco de limão e penso que a vida pode sim ser refrescante em tantos sentidos.
Porque há pouco eu aprendi o conceito de intuição, de virtualidades e do devir e isso, de alguma forma, já mudou tanto do que eu achava que sabia.
Porque nesse momento a tarde cai, minha roupa seca no varal e eu sinto saudades de certas coisas, daquelas saudades boas de se sentir.
Porque eu já não sou quem eu era ontem, porque eu já não sou quem eu era agora, porque alguém me liga e eu percebo que sim, eu simplesmente sou.
Porque imaginar o final de semana traz gosto de merecimento, porque minha preguiça passou e porque se permitir é tão incrível quanto Neil Armstrong pisar na lua.
Porque já dá pra ver a lua, porque amanhã é sexta-feira, porque eu gosto de cortar a unha e roer logo em seguida.
Porque descobri o quão legal uma criança pode ser, porque laços não se quebram, porque minha casa nova é agora a minha casa.
Porque o cinema já existia antes do cinema, porque champignon e pão preto é o que tenho na geladeira, porque o suor escorre nessas tardes de verão.
Porque talvez tantas coisas, porque talvez tantas outras, porque a incerteza seduz, porque é bom à meia luz.
Porque meu olho se cerra no momento em que encerra a plenitude dos dias.
Porque esse é um tempo espantosamente e deliberadamente otimista.
Porque me convenci.
A única coisa que vai se eternizar é o afeto.
* a foto é uma colaboração especial da minha mãe, Cora, que fez o clique no Chile, na prainha frequentada por Pablo Neruda.

sábado, 11 de março de 2006

"O Nescau, a ausência e os estagiários movem o mundo."
constatação minha e de luciano nessa neste sábado

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

felicidade se acha é em horinhas de descuido *


a moldura vermelha dos óculos avisa com precisão:
o mundo hoje se enquadra melhor do que ontem.
pouco a pouco o sim brota da pele, do corpo, da boca que fala

eis que peso a medida do não.

sem que as lentes me digam, sem que o dedo apontado acuse
hoje sei que o disco risca, hoje sei do pisca-pisca, atrás dos óculos ou das ruas
lentamente, não há quem insista, nem mesmo o olhar que me faz

eis que os passos correm delicados, à sua medida e discrição.

* título fisgado pela beleza do verso de guimarães rosa

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

15:39, Centro, 2 minutos e meio na minha cabeça


O Jorge Drexler é bonitão, moreno, morenos... gostei do Moreno Veloso cantando. Preço de aula de canto, preço de aula de canto. Não, não vou poder. Agora vai ser só Jean Baudrillard, Morin e sem mais tempo. Tempo, tempo, tempo, és um senhor tão bonito. What can I say to you, Bonita? What magic words would capture you? Jobim, genial. Sem mais tempo, mas mais vida. Gente nova. Gente nova, é isso. Qual o melhor caminho? Qual o melhor caminho? Vou pela 18 e dobro na Alfredo. Como eu gosto da Alfredo. Rua larga. Gosto de ruas largas, acho que é isso. Por isso gostei de Goiânia. É um fim de mundo, mas tem ruas largas. Quero voltar logo à Av. Paulista e olhar pra cima, pra cima, confundir o céu com os prédios, com tudo enfim. Caxias. Eu gosto. Não gosto. Arrancando raízes. Talvez eu sinta saudades. É bem possível. Saudades só tem espaço quando o espaço se faz sem que me dê conta. A tua presença me dói tanto, eu canto pra ver se espanto esse mal... em que Cd tenho essa música? Tenho de arrumar os CDs. À noite lembro disso. Lembro, lembro. Motorista de merda. Fecha o sinal, fecha o sinal. 40% de desconto? Queria, mas não posso. Ou viajo ou compro roupas ou compro uma geladeira. Casas Bahia. Meu destino breve para admirar Brastemps e comprar uma Electrolux, que é bem mais barata. Electro, electro lux. Luz, quero luz, sei que além das cortinas são palcos azuis. Luz, quero... Oi, tudo bom? Tudo tranquilo. Nossa, que horror que ele tá. Detalhes, detalhes. Homem de regata é o fim da bola. Qualquer tesão possível desaparece com uma regata... regata... queria praia, queria muito estar na praia. Praia não é pra mim. Eu sou do campo. Por quê né? Nhé-nhé-nhé. É, sou do campo. Nossa, que coisa gaúcha de se dizer. Ha-ha, eu campeira. Tá, tá. Não é isso. Eu queria praia, mas não as gentes de praia. Gente se besuntando na areia, gatas de academia, moços marombados, crianças infernais, famílias infelizes em dias de trégua. Bécks. O mar talvez compense. O mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito. Saudades do Rio. Mar, montanha, democracia pra essas gentes de praia, espaço... espaço... então... fez-se o espaço. Fez-se a saudade. Fez-se a saudade e eis, eis o Banrisul! Porque nem tudo é o que parece... as aparências enganam aos que odeiam, aos que amam... que puta gravação essa da Elis. Última faixa do Elis, essa mulher. Tenho de parar com isso de saber a ordem dos discos. Disco, diz-que... diz que deu, diz que dá, e se Deus não dá? Como é que vai ficar...?

segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

sobre mim e o resto do mundo



Eu vou ser sempre alguém que acha o João Gilberto muito mais vanguarda que a Bjork.
E isso explica muita coisa.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

E eis alguns dos meus cliques numa tarde de céu colorido






Versos de Inútil Paisagem (Antonio Carlos Jobim e Aloysio de Oliveira - 1963)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

meia noite e dezessete


- Desliga a luz aí do teu lado? Ah, e agradece o convite, mas despista pra mim? Tu sabe Luiza, eu nunca fui bom em falar assim, em público. Me atrapalho todo. Meus pensamentos são relativamente bons, no máximo, quando permanecem dentro de mim mesmo. Não sei externar essas coisas. Com o tempo é que tenho aprendido a me dar, me doar, estabelecer algum tipo de relação com o mundo exterior, mas daí a conseguir falar pra mais de cinco pessoas durante uma hora é outra coisa. Tu sabes que o Tom Jobim, a quem teu pai atribui teu nome, dizia que a complicação da vida é que a gente tem de ser o síndico da gente mesmo. Não dá pra apelar sempre pro outro, chega um tempo em que os nossos problemas são nossos, por mais que a gente possa compartí-los. É louco isso, né Luiza? Porque eu sei que eu posso contar contigo, mas tem coisas que só eu posso resolver e aí muito do nosso romantismo cai por terra. Meu romantismo, da mesma forma que eu o alimento de forma crescente, seja lendo Neruda, seja olhando os Jasmins da esquina da Humberto de Campos eu o destruo quando vejo a senhora mal educada chupando o pêssego sem pagá-los no caixa de supermercado. E isso é idiota, eu sei. Eu não sou grande como tu pensas, eu me incomodo com essas coisas, a vida me irrita com cacos demais... é o celular que não funciona, é a capa da Veja desta semana, é a tinta da impressora, é o taxista de direita, é o PFL jovem, é o Caetano dizendo bobagens, é a tua mãe enchendo nosso saco, é teu irmão comendo a coxa da galinha, é o meu pai hiponcondríaco, é o teu jeito de passar batom... e eu já te disse o quanto o teu jeito de passar batom me irrita, Luiza. Eu, por mais que queira que tu me saibas por inteiro, não quero ter que detalhar a minha conta do banco, eu não quero que tu tenhas sempre a clareza de que eu vivo pra não estar no vermelho, de que eu quero te dar coisas, de que eu quero nos dar coisas, eu não quero esmiuçar todos os meus passos, por mais que eu queira que tu saibas como eu quero andar pelo mundo. Eu sou complicado, né Luiza? Com o Pedro era assim também? Tá, desculpa, desculpa, nós prometemos não falar de ex-amores. É que ex-amor também não existe... amor por mais que se vá, acaba ficando. Tu entendes o que quero te dizer? Talvez tu fiques magoada por eu te dizer isso, mas é verdade. E a verdade também é que eu me apaixono e desapaixono com uma facilidade incrível, Lu. Nunca te chamei de Lu. É tudo tão recente... mas a gente também combinou de não nos chamarmos por apelidos toscos, por mais vontade que eu tenha de te chamar de benzinho ou chuchu, de vez em quando. Mas não te preocupas. Nós dois temos plena consciência do ridículo da paixão. E eu te admiro sobretudo por isso, porque tu tens noção das pieguices, não as comete a ponto de beirar o constangimento mútuo e ao mesmo tempo tu te entregas. Isso é tão bonito em ti... sobretudo porque isso não tem psicólogo que ensine ou oriente. Ou tu te jogas para as coisas ou tu passas a vida com a marcha ré engatada. Não posso falar em ré engatada que me lembro do vencimento da carteira de motorista. Tu me lembra disso essa semana, certo? Eu tenho pavor dessas burocracias do mundo, pagar luz, ir no banco, comprar alpiste, negociar o aluguel. Eu sou um pulha, Luiza. Nunca serei um bom sindíco de mim mesmo. Eu nunca sei se uso eu ou uso mim. Como é que tu se apaixonou por mim? Ahn? Luiza? Lu? Chuchu? Dormiu.

terça-feira, 27 de dezembro de 2005

das palavras que me arrebatam 2*


Pequenas Epifanias
Caio Fernando Abreu, Estadão, 22/04/1986.

Há alguns dias, Deus - ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus - enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer - eu já estava lá dentro. E estar lá dentro daquilo era bom. Não me entenda mal - não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida".
Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziaram para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos. Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mau me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa.
Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas.
Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector - Tentação - na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível." Cito de cabeça, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada no degrau às três da tarde, com um cão bassê também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E, nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou - descuidado, também - em pequenas epifanias - Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias, encravadas no dia-a-dia.
Era isso - aquela outra vida inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nesses dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém mais veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso também tocar em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que recomponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.
* seguindo as coisas que nos invadem, este é, sem dúvida, meu conto preferido do Caio Fernando Abreu. Há tempos leio e releio isso. Agora compartilho com os queridos do pátio de cá / Imagem do gênio E. Hopper.

das palavras que me arrebatam 1*


Céu embaixo
Paulo Leminski, do livro Gozo Fabuloso

17
Janelas, escancaradas janelas do 17º andar, aqui vou eu, aqui vai toda essa minha estúpida vontade de apagar a luz, única maneira decente de apagar a dor.

16
Décimo sexto andar. Até aqui, tudo bem. A temperatura está a 17 graus, o céu azul, e a lei da gravidade continua funcionando com o costumeiro rigor. Quem partiu, tem que chegar.

15
Ao passar pelo 15º andar, já não acho mais que quem partiu tem que. Está provado que é possível, em certos casos, partir sem chegar a. Nesses casos, se diz, houve empate. Eu não jogava pelo empate. Jogava pelo escândalo, vitória ou derrota. Foi vitória? Derrota? Tem gente que prefere abrir o gás. Tem quem se dedique à pesca submarina. Em nenhum desses casos, o fim é algo de último, a meta não é definitiva. Qual era o jogo dela? Fosse qual fosse, amigos, amigos, jogos à parte.

14
Só quem já caiu de um 1º andar pode imaginar o que senti quando. Quando foi mesmo? Será que foi? Ou foi um peso que tirei de cima de mim? Peso por peso, prefiro o meu, que, pelo menos, me leva para algum lugar.

13
Pronto. Treze é meu número de azar favorito. Tenho outros números de azar. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, por exemplo, essas coisas, enfim, que atravessam as réguas de cálculo. De todos, 13 é o meu predileto. Que foi que fiz para merecer cair até o 13º andar, donde se descortina um relance do Atlântico? Quem sabe eu não devia ter, vocês sabem. Vai ver, aquela nuvem lá longe não passa de um eco de um pensamento meu. A raiva é sábia.

12
Alguma coisa não pára de me dizer, não devia ter vindo. Eu sabia que a comida era péssima, o atendimento sempre ficava a desejar. Mas, depois de vindo, como desvir? O 12º é sempre o mais filosófico. Aquele onde o ato de pensar fica mais ridiculamente genérico. Cair não é genérico. Cair é a coisa mais natural do mundo. Cair é lógico. Podem perguntar para qualquer pedra do planeta Terra.

11
O 11º andar é sempre um caso à parte. Talvez melhor dissessem um caos à parte. Mas isto não seria correto. O correto consiste em dizer: o 13º andar, donde se descortina um relance do Atlântico, sim, o mais correto, é deixar cair.

10
Não sei como suporto esta situação. º absolutamente ridículo. Só porque alguém saltou do 17º andar de um edifício não quer dizer necessariamente que tenha que chegar até um, digamos, décimo andar. O décimo andar, em casos de queda, é objeto e motivo de lendas e chacotas entre muitos povos primitivos que, absorvidos por outros afazeres mais prementes, deixaram-nas cair no esquecimento, onde jazem até hoje. Mas jazem muito 'bem. As lendas 50bre o décimo andar, ainda vai haver quem as conte. Palavra de honra.

9
Que frio. Bem que minha mãe falou, leva um casaco. Sempre assim. A cabeça não pensa, o corpo é que sofre. O que eu queria mesmo era ficar para sempre nó 12º andar.

8
Ela, ela mora no 12º andar. Ao passar, quase dei um alô. Ela não entenderia. Telefonaria para a mãe. Fritaria um ovo. No máximo, olharia para baixo. Ou para cima, para ver de onde eu tinha vindo.

7
Parece mentira, mas cheguei ao 7º andar. A que ponto chegamos! Nessa velocidade, a lembrança do 12º andar parece apenas uma lembrança. A física ensina que os corpos têm sua queda acelerada à medida que se aproximam do destino. Não vejo por que deveria ser diferente comigo. A lei da gravidade é a mais democrática de todas. Rege, com idêntico rigor, gregos e troianos, jóias e paralelepípedos, impérios e pétalas de magnólia. Sete é conta de mentiroso. Ela me mentiu. Nada mais fácil que mentir que se ama alguém. Basta dizer: eu te amo. Quem vai saber? Como medir? Como provar? As palavras também estão sujeitas à lei da gravidade?

6
No sexto, fica a administração. É o andar mais frio e mais distante. É onde se tramam as grandes negociações, onde ficam os cofres com os segredos indecifráveis. Chegar ao sexto andar é a ambição de todo corpo que cai. Os que não. A poucos é dada essa proeza. Os que fracassam, fatalmente, continuarão caindo até o quinto, onde ficam os infernos.

5
Do antigo inferno, o moderno só traz o nome. Na verdade, o inferno de hoje, no quinto andar, é um dos andares mais agradáveis do edifício, dispondo de amplas instalações, sala, cozinha, banheiro, área de serviço e quarto de empregada. Os banheiros são revestidos de material à prova de fogo, precaução inútil, já que neste prédio raramente ocorre algum incêndio de proporções catastróficas. Da janela do quinto andar, avista-se o letreiro que diz, PROIBIDO CAIR.

4
Ninguém nunca soube para que servia o quarto andar. Sempre se imaginou que era uma espécie de depósito onde se guardavam as coisas que não serviam mais para os andares de cima, garrafas vazias, móveis usados, lâmpadas queimadas, livros já lidos, óculos quebrados, espelhos, diários, relógios.

3
Deus queira que esta saudade do 12º permaneça acesa durante todo este andar, durante o frio, o vento, a angústia, a raiva e a força maior deste poder que me chama.

2
Não há muito a dizer, nunca há. Meia dúzia de palavras resolvem problemas de mil anos atrás. Fomos nos dizendo cada vez menos Dizer sempre é uma outra coisa.

1
O chão é duro.
* E eis aí algo do Leminski que recém fui apresentada e me tomou de tal maneira que tive de postar aqui. Obrigada, Léo.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2005


meu indulto de natal
chegou calmo e tão sereno
veio em paz, todo moreno
desses presentes que não se pede,
presentes que acontecem


meu indulto de natal
sabe bem de seu papel
só tem medo do embrulho
tem receio é do volume
do amor que eu posso dar
* imagem do gênio do olhar, cartier bresson

quinta-feira, 15 de dezembro de 2005


Ontem ela roeu todas as unhas. Só não roeu tanto a do mindinho porque pouca unha tinha lá - nada mais restava a não ser um sanguezinho no canto e aquela dor de beliscão que agora ficara em seus dedos. Roeu todas as unhas enquanto ouvia Chet Baker e pensava que queria muito era viver em outro lugar.

A cidade, que agora lhe cabia nas palmas das mãos de unhas roídas, já não lhe entregava surpresas, não reservava esquinas que ainda não tinham sido cruzadas, avenidas novas para serem atravessadas. Nada. O vazio dos carros, dos postes sem luz, das gentes de atar em postes também. Até os loucos todos ela já conhecia.

Não dá pra se viver num lugar onde a gente já sabe da maioria dos loucos. É preciso haver loucos escondidos, loucos pra se revisitar, loucos debaixo de escadarias, loucos fazendo malabares com objetos invisíveis. E ali já não mais havia louco algum assim, louco novo, tinindo de esquizofrenia.

Tentou levar os pés à boca, pra ver se ao menos a unha do dedão não conseguia roer também. Nada. Os anos de exercícios não praticados só lhe valeriam a falta de flexibilidade, além da farta e vasta preguiça. E lhe dava uma preguiça imensa lembrar que é preciso mudar. Mudar dói. Mais do que roer unhas com afinco ao som de Chet Baker.

terça-feira, 13 de dezembro de 2005

Por amor à vida


Hoje fui ver no Santander Cultural (POA), a exposição "Por amor à vida", uma celebração ao centenário do Érico Veríssimo. Recomendo a visita, pois vale a pena. São belas fotos da intimidade do escritor, exibição de documentário e de originais, de desenhos - os quais me surpreenderam muito. Fiquei tocada muito em função do depoimento de outros escritores sobre ele, da postura retílinea dele diante da vida e ao mesmo tempo parecendo ser uma figura tão tranquila, amorosa, fazendo a diferença no compartir. Um homem gentil de todo.
Apenas recomendo a visita e deixo aqui um trecho de uma entrevista que Érico concedeu ao Antonio Hohfelt em 1973 e que traduz a impressão que ficou em mim após ver tudo isso:
"Confesso que cheguei a um ponto de saturação, autonáusea de minha obra literária, que me torna um pouco difícil escrever... e ao mesmo tempo ando tão apaixonado por literatura. Há tantas coisas novas que eu nem conheço. É por um enorme amor à vida que a gente faz arte. Multiplico minha vida na criação da dos outros."

sexta-feira, 9 de dezembro de 2005

*


Assopra esse balão
Pra que ele voe assim
À altura dos teus sonhos
Na medida dos teus braços
Certamente onde teus passos
Flanando, então, te levarão
*Outro post sertanejo.
Ilustra da amiga Clarissa e o meu palavreado solto.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

Meu maestro soberano


Então, hoje se completam 11 anos sem o Tom Jobim por aqui (25/01/27 - 08/12/94).
Saudades de gente que a gente nem viu. Isso é estranho. Haveria tanto a se falar dele que fico sem nem saber o que dizer. Apenas que, pra mim, ele é o maior. O maior gênio musical da nossa raça.
Estou ouvindo coisas dele desde cedo. Procurei uma imagem pra colocar aqui e pesquei umas de quando jovem - ele, tão lindo. Mas preferi essa, da fase início dos anos 90, que eu acho que traduz tanto do charme do maestro.
Salve Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, meu ídolo maior. Sempre.
Segue abaixo a minha preferida do dia, parceria com Marino Pinto - parceiro de duas das minhas preferidas entre as preferidas: Sucedeu Assim (que tem de ser ouvida) e Aula de Matemática. Porque são tantas e tudo lindo.


Sucedeu Assim
(Tom Jobim/Marino Pinto)

Assim,
Começou assim
Uma coisa sem graça
Coisa boba que passa
Que ninguém percebeu

Assim,
Depois ficou assim
Quiz fazer um carinho,
Receber um carinho,
E você percebeu

Fez-se uma pausa no tempo
Cessou todo meu pensamento
E como acontece uma flor
Também acontece o amor

Assim,
Sucedeu assim,
E foi tão de repente
Que a cabeça da gente
Virou só coração

Não poderia supor
Que o amor nos pudesse prender,
Abriu-se em meu peito um vulcão
E nasceu a paixão por você

"O conselho da Bossa Nova é de levar a pessoa à vida" (Tom Jobim)

“A morte de Tom Jobim não foi apenas a queda de uma árvore,
foi a derrubada de uma floresta” (Arnaldo Jabor)